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segunda-feira, 27 de maio de 2019

EM DEFESA DA EDUCAÇÃO - "essa faixa não nos representa"



Ontem, durante os protestos solicitados pelo presidente contra o Congresso e contra o STF, manifestantes chegaram a arrancar uma faixa que estava afixada num alto de um prédio da Universidade do Rio que tinha os seguintes dizeres: EM DEFESA DA EDUCAÇÃO.  

Em um dos vídeos em circulação, o "defensor da nação" que faz a gravação diz claramente: "essa faixa não nos representa".

É claro que a maioria dos que estavam ali não precisa de verbas para educação. Simplesmente porque seus filhos estudam nos melhores colégios particulares do país. Muitos deles sequer frequentam universidades públicas no Brasil. 

São, em quase sua maioria, afortunados da classe média alta e elite brasileira, nas ruas pelo direito de pagar menos aos seus funcionários e usá-los, em seus setores de trabalho, como se escravos fossem. Essa gente está pouco se importando com a educação no país. A maioria deles tem pais ricos e já entra para trabalhar na empresa da família em cargos de chefia. 

Portanto, uma nação burra, sem conhecimento e sem cultura, é um oásis para eles.

E é aí que entram os filhos dos trabalhadores, dos pobres, daqueles que dependem do poder público para garantir a formação de seus filhos. 

Pois é! 

É isso que estamos tentando mostrar para a parcela dos miseráveis, pobres e negros, trabalhadores assalariados e desempregados, gente como nós que batalha todos os dias para sobreviver numa sociedade cada vez mais desigual. Aos que, por falta de visão social e política, estão a somar com esses que desejam acabar com nossos direitos. Com os teus direitos! Com os direitos dos teus filhos!

A gente não tem dinheiro para pagar um plano de saúde, cara! Por que você está nas ruas contra o SUS? Contra à universidade pública!? Contra o direito do trabalhador se aposentar!? 

Quem está fazendo o papel do idiota inútil? 

Os caras que foram às ruas pelo direito de estudar ou você que foi as ruas pelo direito de fechar universidades? 

Neguinho fazendo o jogo dos caras que nunca precisaram acordar cedo para ir para o trampo. Gente que não sabe o valor do gás, da cesta básica, da passagem do coletivo! 

Ontem vi uma galera saindo da periferia de Paulista (PE), pegando dois ônibus para ir na orla de Boa Viagem manifestar seu desejo de trabalhar até morrer! O cara está na universidade pública, está estudando no IF e, mesmo assim,  levanta a faixa por "MAIS CONTINGENCIAMENTO"! Mais cortes! Mais desemprego!  

O objetivo desse "contingenciamento" é um só: tirar dos nossos filhos o direito de ter a formação técnica ou superior que nossos filhos desejem.

É acabar com o ensino superior para os de baixa renda.

Isso parte de um grande projeto de Terra Arrasada, que visa levar o Brasil à condição de subserviente ao imperialismo americano. 

Por isso, a perda de direitos trabalhistas e sociais!
Por isso, a entrega do patrimônio público!
Por isso, a entrega total dos nossos bens naturais e energético! 
Por isso, a destruição de nossas grandes empresas! 
Por isso, a entrega do nosso pré-sal!
Por isso, a entrega da Amazônia!
Por isso, a "venda" da Embraer!
Por isso, essa onda de privatização!

Estamos tentando dizer a vocês, trabalhadores, pobres, negros e todos aqueles que fazem parte da base da pirâmide social,  que o apoio a esse tipo de manifestação é um tiro no pé de todos nós. 

Banqueiro apoiar essa manifestação, empresário e os afortunados apoiarem, é de se esperar. 

Mas, trabalhador!???

O malafaia, a ana hickmann, o edir marcedo, o ratinho, o milton neves, o datena, a luciana gimendez... Apoiar tudo isso é aceitável. É repugnante, mas sabemos que eles não têm caráter e fazem por dinheiro. Muito dinheiro. 

Mas, o quitandeiro da esquina?!! 
O lavador de carro? 
O estudante negro e pobre da Universidade da Paraíba?

Aí, neguinho da periferia vai na onda e TNC.



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emiltonx@gmail.com

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Como mudou a educação no Brasil.

Encontrei nesse final de semana dois amigos do ginasial. Lembramos de algumas histórias daquela época. Rimos muito das "armações" que praticamos com professores e colegas de turma. E terminamos por fazer um comparativo do que vivemos numa escola estadual no finalzinho do período militar para a educação de hoje, num país democrático.

Éramos muito pobres. Todos os três. Nossas famílias viviam sempre com grandes dificuldades financeiras. Naqueles anos, para muitos adolescentes, na nossa idade, completar o ensino primário já era muita coisa. Insistir em fazer o ginasial, que hoje é chamado de Fundamental II, era uma tarefa para poucos. Isso se tratando dos que faziam parte da classe mais pobre.

Em quase todo início de ano, a direção da escola me cobrava o fardamento. 

Quando entrava o mês de março, era um sufoco. Era o primeiro prazo para todos os alunos se apresentarem uniformizados.

Meus pais não tinham condições de comprar os tecidos e pagar costureira para confeccionar o uniforme. Camisa de tergal branca com um bolso do lado esquerdo do peito com o emblema do colégio, calça de brim azul-escuro e sapatos conga, preto ou azul.

Quando chegava março, os portões da escola fechavam. Quem não tinha uniforme, ficava do lado de fora esperando o diretor chegar. Não era só eu, havia outros. No turno da manhã, estudavam cerca de 350 alunos e pouco mais de trinta estavam sem farda.

Entre os barrados, havia problemas (referentes ao fardamento) de tudo um pouco. Os que tinham a calça, mas faltava-lhes a camisa. Os que estavam vestindo a camisa, mas a calça não era do tecido padrão, escolhido pela Secretaria de Educação de Pernambuco. Tinha aluno que, embora estivesse com a camisa e a calça, faltavam os sapatos. E era esse dilema, cada um com sua história. 

Eu fazia parte dos que faltava tudo.

Entre os doze e dezessete anos, foi o período que mais evoluir em matéria de corpo. De um ano para outro, minhas roupas e sapatos não cabiam mais. Mas, o que isso interessava ao Governo do Estado de Pernambuco!?

Enfim, o diretor da escola chegava dirigindo seu carro. Como eu era o mais "reincidente", ele me dirigia um olhar que até hoje não sei se era de reprovação ou de preocupação. Um olhar  que falava claramente: "Emilton, você outra vez!"

Éramos levados até sua sala. Todos! Esperávamos enquanto ele falava, por telefone, com o seu superior na Secretaria de Educação. Após alguns minutos, ele nos informava que a “secretaria decidiu dar mais um prazo para que os alunos que ainda não tivessem fardamento, providenciassem urgentemente”.

Geralmente era dado mais trinta dias. Todos sabíamos que aquela “generosidade” da Secretaria de Educação não passaria do mês de abril. Tudo nos levava a acreditar na existência de uma norma que exigia todos os alunos devidamente fardados até maio. 

O Estado não iria tolerar que, no início da manhã, quando os alunos se enfileiravam para cantar o hino nacional, tivesse entre os mais de 350 alunos, cinco ou seis sem farda. Isso era uma afronta ao governo.  "Onde estava o dever cívico?"

Eu sabia que não iria conseguir solucionar o problema até maio. Eu já havia passado por aquilo no ano anterior e no outro também. Mesmo assim, agradecia ao diretor e seguia para a sala de aula. Nessa altura já havia perdido as duas primeiras aulas, mas o que importava era que “eu ainda estava estudando”.

Passados os quinze dias de prazo, dado "generosamente" pela Secretaria da Educação do Estado de Pernambuco, dos pouco mais de trinta barrados, outrora, restavam uns nove ou onze. 

E entre eles, eu.

Mais uma vez, proibido de entrar, esperar o diretor do lado de fora da escola e rezar a Deus para que Ele encontrasse uma saída para nosso problema. Mas, na verdade, só depois de muito tempo percebi que o jogo era justamente esse: chegar em meados de abril, com um número mínimo de estudantes que precisaria do apoio do Estado para que lhes fossem “entregue de graça” o material para confeccionar o fardamento. Ainda que isso provocasse um grande constrangimento.

Muitos colegas chegavam a desistir. Essa era uma das grandes razões, NÃO a única, que impediam estudantes da classe pobre, na minha época do ginasial, de prosseguir nos estudos.

O diretor chegava em seu carro, entravamos com ele e agora era adotado um novo procedimento. Preenchíamos uma planilha, com dados pessoais, econômicos e as medidas de nossas roupas. Assim, a Secretaria de Educação do Estado de PE, atendendo à expressiva "generosidade do governador do estado", se comprometia a enviar as peças de tecidos para ser entregue a cada um dos alunos "carentes". 

Dias depois recebíamos os tecidos, levávamos para casa para serem confeccionados os fardamentos e aí, sim, finalmente entrávamos pelo portão da escola fardados. 

Todo esse processo, embora doesse muito, em nenhum momento pensei em desistir. 

Nunca me senti menor, por isso. Constrangido, talvez! Aliás, não percebi, na época, nenhuma discriminação por parte dos amigos de classe. Pelo contrário, muitos eram até solidários. A discriminação com os estudantes vinha de cima. Muito lá de cima.

Foi aí que um dos colegas de ginásio lembrou que, quando ele largava da escola, tinha que voltar para casa o mais rápido possível. Porque a farda que ele usava pela manhã era a mesma que o irmão usava à tarde.

A cobrança que alguns professores faziam sobre os alunos que não tivessem comprado o livro didático foi outra lembrança dolorida. 

Você imagina, todos os dias, na hora da chamada, ter que ouvir do professor: "você ainda não comprou seu livro, Emilton?" Isso em alto e bom-tom. 

Mas essa é outra história. Talvez um dia possamos contá-la, por aqui.

Têm pessoas que tem medo de contar seu passado. Eu tenho orgulho do meu. Muitos que passassem pelo que passei se perderiam, se "venderiam" ou desistiriam. Mesmo com todas as dificuldades, nunca repetir um ano escolar. Concluir, "a duras penas", o Ensino Médio, depois o "Ensino Científico", o "Ensino Técnico" e o Superior.

As dificuldades vêm. Sempre encontraremos pedras no caminho. Elas servem para alicerçar ainda mais nosso caráter! Nos tornar mais fortes!

Mas esse também é outro assunto que trataremos em outro momento. 

Não desista, nunca!