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sábado, 29 de agosto de 2026

Recife: A Capital dos Pula-Catraca e a Falência Silenciosa da Cidadania.

 

Andar de transporte público em Recife tem se tornado um exercício diário de espanto e indignação. Quem transita pela nossa capital e pela Região Metropolitana percebe, sem grande esforço, que normalizamos o absurdo. Mais do que isso: criamos, sem querer, um título nada honroso para a nossa terra. Para mim, Recife caminha a passos firmes para se tornar a capital dos pula-catraca.

O fenômeno não escolhe mais cenário. Acontece nas paradas ao longo das avenidas, nos sistemas de BRT onde passageiros ignoram o risco de morte para entrar pelas portas laterais de vidro, e — no que há de mais surreal — dentro dos próprios terminais de integração. Estamos falando de locais com forte aparato de segurança, policiamento ostensivo, câmeras de monitoramento e catracas duplas. Ainda assim, o salto sobre o obstáculo virou rotina.

O que mais choca, contudo, é a mudança de perfil de quem adota essa prática. Anos atrás, a evasão de tarifa era quase sempre associada a pessoas em extrema vulnerabilidade social, empurradas pela miséria. Hoje, a realidade é outra. Vemos trabalhadores, estudantes e jovens de classe média — muitos na faixa dos 20 a 30 anos, ostentando roupas de grife, smartphones caros e acessórios de marca — praticando o ato com naturalidade.

O problema ganha contornos ainda mais graves quando atinge a rede de ensino. Em uma única viagem recente pela Avenida 13 de Maio, nas proximidades de uma escola estadual, presenciei cerca de 15 alunos uniformizados entrarem no coletivo: no mínimo 12 deles pularam a catraca. Estamos falando de jovens que recebem passe-livre ou auxílio-transporte justamente para estudar. Onde está o papel formativo da escola? Onde está a intervenção pedagógica do Estado e da Prefeitura para frear essa inversão de valores?

A cena se repete em outros grupos que deveriam carregar o bônus da responsabilidade profissional. Já me deparei com jovens aprendizes — portando orgulhosamente o uniforme e o logotipo das empresas onde trabalham — cometendo o mesmo ato reprovável. É um contrassenso doloroso: vestir a camisa de uma instituição nobre enquanto se desrespeita o pacto social mais básico de convivência urbana.

Como pai, cidadão e educador, essa realidade me causa uma profunda angústia. O que verdadeiramente assusta não é apenas a ousadia inconsequente dos jovens, mas a perigosa conivência social ao redor. Não é raro presenciar transeuntes e até familiares que acham graça, rindo e aplaudindo o espetáculo da desonestidade que se normalizou diante de nossos olhos.

Viajo, faço questão de utilizar o transporte público nas cidades por onde ando, e não encontro esse nível de desrespeito generalizado em nenhum outro lugar. A apatia das autoridades diante do problema é ensurdecedora; parecem ignorar que a impunidade na pequena infração é a escola preparatória para a grande criminalidade.

Se queremos um futuro melhor para Recife, precisamos urgentemente resgatar o civismo, cobrar das autoridades uma fiscalização real e reatar o elo entre a educação formal e a formação de caráter. Afinal, uma cidade que aplaude quem burla a lei está, lentamente, assinando o atestado de falência do seu próprio futuro.

O caminho para mudança sempre é a educação.


P.S. imagem produzida por IA.

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