Sei pouco sobre esse troço que foi eleito deputado estadual em São Paulo com discurso anti-aborto, anti-gay e, pasmem(!), anti-negros. Isso mesmo(!), esse negro abortista luta contra a história e as conquistas da raça negra brasileira.
Mas a hipocrisia desse deputado extremista de direita do mbl, me fez lembrar do caso da clínica da médica Neide Mota, em Campo Grande (MS), considerado o maior escândalo relacionado ao aborto na história recente do Brasil. Ele revelou não apenas uma rede clandestina massiva, mas também a profunda hipocrisia de setores da elite e da política sul-mato-grossense.
Um, verdadeiro, retrato do Brasil.
Em 2007, uma investigação policial e do Ministério Público culminou no fechamento de uma clínica de planejamento familiar mantida por Neide Mota há mais de 20 anos. Diferente de "clínicas de fundo de quintal", o local era uma estrutura de alto padrão, equipada com aparelhos modernos e situada em uma área nobre. O que chocou o país foi a dimensão dos registros encontrados. A polícia apreendeu fichas de aproximadamente 10 mil mulheres que teriam passado por procedimentos de aborto na clínica. As fichas revelaram que o público não era de mulheres vulneráveis, mas sim de mulheres de classe média e alta, incluindo esposas de políticos, empresárias, advogadas e estudantes. Os procedimentos custavam caro (entre R$ 3.150 e R$ 15.750 valores atualizados), o que garantia segurança médica e discrição absoluta. O caso tornou-se um rastilho de pólvora na política local. Muitos dos políticos que faziam discursos inflamados na Assembleia Legislativa em defesa da "família e da vida" viram nomes de familiares ou de pessoas próximas aparecerem nas investigações. Houve uma tentativa de criminalizar em massa as 10 mil mulheres, mas o processo foi marcado por polêmicas sobre o direito à privacidade e a seletividade da justiça. Em 2009, sentindo-se abandonada pelos antigos "clientes influentes" e sob forte pressão judicial, Neide Mota foi encontrada morta em seu carro. A perícia concluiu que foi suicídio por ingestão de medicamentos.
O episódio da Clínica Neide mostrou que o aborto no Brasil é, e sempre foi, proibido apenas para quem não pode pagar. Enquanto mulheres pobres morrem em procedimentos precários, as elites tinham e têm acesso a clínicas como a de Neide, com segurança hospitalar. O caso expôs como figuras públicas utilizam a pauta do aborto como moeda eleitoral, enquanto, na vida privada, recorrem ao serviço quando lhes é conveniente.
O processo criminal contra as milhares de mulheres que fizeram aborto na Clínica de Neide acabou sendo anulado anos depois pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob o entendimento de que as provas (as fichas médicas) foram obtidas de forma que violava o sigilo médico-paciente.
O sinônimo da extrema-direita é, certamente, a hipocrisia.
O falso moralista conservador que condena o aborto é, muitas vezes, o mesmo que o financia ou incentiva no sigilo. É a mesma lógica daquele que ataca gays e mulheres trans. A agressividade pública costuma ser apenas uma cortina de fumaça para esconder os próprios desejos.
No fim das contas, quem muito condena, no fundo, bem lá no fundo, consome.
Contribua com o nosso trabalho através da chave PIX - banco Santander 👇
emiltonx@gmail.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário